Biografia de

Mario Braga de Abreu

  1906         1981

Patrono

  Cadeira 59

  Patrono: Mario Braga de Abreu

 

Mario Braga de Abreu nasceu em Curitiba, Paraná, em 25 de abril de 1906, filho de Manoel Martins de Abreu, comerciante português que chegou ao Brasil aos catorze anos de idade e de Maria Joana Braga, de tradicional família lapeana. Os estudos primários foram feitos no Ginásio Diocesano de Curitiba. Transferiu-se para o Rio de Janeiro para o curso secundário no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Em seguida matriculou-se na Faculdade de Medicina daquele Estado e graduou-se em 28 de dezembro de 1929. Como estudante demonstrou sua tendência cirúrgica, frequentando como interno as enfermarias de Góes Filho, de Brandão Filho e de Irineu Malagueta,na Santa Casa. No Serviço de Pronto-Socorro estagiou no Serviço de Sylvio Brauner e Jorge Dória. Sua tese de doutoramento, aprovada com distinção, versou sobre Ruptura Expontânea da Vesícula Biliar em Peritôneo Livre. Embora tencionasse permanecer no Rio de Janeiro, acabou se fixando em Curitiba. Em julho de 1930 foi admitido como médico-adjunto do Serviço de Cirurgia dirigido por Szymon Kossobudski na Santa Casa. Logo evidenciou grande dedicação profissional. Foi natural sua ascensão à chefia do Serviço, em 1935, após a morte de Kossobudzki, em 8 de julho daquele ano. Como as cadeiras clínicas da Faculdade de Medicina do Paraná desenvolviam-se na Santa Casa, o jovem cirurgião logo integrou-se no ensino de Clínica Cirúrgica, à regência definitiva da qual as circunstâncias pareciam indicá-lo. Em 1935 prestou concurso de livre-docência na Faculdade e no ano seguinte, mediante novo concurso, obteve o título de catedrático. O fato de assumir a cátedra aos trinta anos de idade, foi mais um desafio do que o coroamento de uma carreira acadêmica. Começou por visitar vários serviços hospitalares no exterior. Assim, em Montevidéu frequentou as clínicas chefiadas pelos professores Navarro, Acevedo Blanco e Prat. Do outro lado do Rio de La Plata esteve com os então célebres Arce e Enrique Finochietto. Passou o ano seguinte, de 1937, aperfeiçoando a cultura médica em famosos centros universitários e médicos europeus. Em Berlim frequentou os serviços dos professores Rütz e Erwin Gohrbandt. Estagiou nas renomadas clínicas de Martin Kirschner na Universidade de Heidelberg e de Lorenz Böhler no Unfall-Krankenhaus de Viena. À época, Alemanha e França rivalizavam-se na liderança da Cirurgia Europeia. Por isso completou seu giro de aperfeiçoamento em Paris frequentando o Hospital Cochin (prof. Mathieu), o Hospital Bichat (prof. Henri
Mondor) e Salpétrière (prof. Jean Gosset).
Desde o início de sua atividade docente à frente da 1ª Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina do Paraná desempenhou liderança universitária, como comprova o fato de ter sido paraninfo dos formandos de 1937, logo após sua turnê europeia, fato que se repetiu nos anos de 1940, 1947, 1955 e 1960.
As enfermarias da Santa Casa foi onde, durante toda sua vida médica, dedicou-se incansavelmente à chefia do Serviço que desejava modelar. Nele praticava toda a Clínica Cirúrgica, particularmente a gastroenterológica e a ortopédica.
Seu envolvimento com a Ortopedia iniciou-se com os estágios nos Serviços de Kirschner e Böhler e prosseguiu em toda sua carreira. Foi cirurgião-ortopedista do Hospital de Crianças de Curitiba de 1938 a 1940 e traumatologista de acidentes de trabalho da Companhia de Seguros Atalaia em 1939. Em 1940 tornou-se membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, da qual foi um dos fundadores.
Nesta Sociedade teve ativa participação em todos os congressos nacionais, de 1940 a 1948, sendo neste último o orador oficial.
Participou de bancas examinadoras de concursos de cátedra em várias Universidades, sendo de destacar os de Cirurgia Infantil e Ortopedia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná (1953), de Clínica Cirúrgica da Universidade de São Paulo (1969).
Na ampla área da Clínica Cirúrgica a atuação de Mário Braga de Abreu foi extremamente prolífica. Chefiou as enfermarias cirúrgicas da Santa Casa desde 1935 e a 1ª Clínica Cirúrgica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná a partir de 1962 até sua aposentadoria em 1976. Nessas enfermarias exerceu ininterruptamente seu grande pendor, que era a educação médica. Mais do que o ensinamento técnico sua concepção incluía a imposição de normas éticas rígidas de profundo respeito ao doente, caridade com os sofredores, honestidade incondicional e permanente desejo de aperfeiçoamento profissional.
Dos que passaram por seus Serviços, muitos se destacaram na vida profissional e acadêmica, todos guardaram um compromisso permanente com os princípios que lhes foram incutidos pelo mestre, a quem se referiam, respeitosa e afetuosamente, como Velho Mário.
Este sentimento está inscrito no bronze da placa afixada em um corredor da parte antiga do Hospital de Caridade: Nesta Enfermaria São Roque durante cinquenta e um anos, cotidianamente exerceu e ensinou cirurgia e traumato-ortopedia, praticou caridade, deu exemplos de ética, dignidade e humanismo cristão.
Contam-se às dezenas os trabalhos publicados na imprensa médica nacional e estrangeira, as conferências e relatórios de congressos versando principalmente temas de Cirurgia Gastroenterológica e Ortopedia.
Essa participação ativa no meio médico granjeou-lhe renome, como demonstra o fato de em 1964 ter sido agraciado com a medalha do Mérito Médico São Lucas, de São Paulo, que anualmente distinguia um cirurgião brasileiro.
Fez parte de numerosas entidades médicas no Brasil e no estrangeiro. Foi membro- titular da Société Internationale de Chirurgie e da Asosación Argentina de Cirugia, sócio-correspondente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e da Associação Paulista de Medicina.
Nas entidades de classe teve destacado papel. Participou da fundação da Sociedade Médica dos Hospitais. Esta Sociedade fundiu-se com a antiga Sociedade de Medicina, que existia desde 1914, e, juntamente com o efêmero Sindicato Médico unificaram-se em 1933 para formar a Associação Médica do Paraná. Desta, foi, por duas vezes, presidente (1939-1940) e (1962-1963), Suas gestões foram muito produtivas, incentivando a integração da filiadas do interior, o que levou à concessão do título de sócio-benemérito. Igualmente, a Academia Paranaense de Medicina, ao ser criada, em 1978, o fez membro honorário.
Teve participação decisiva na criação da Faculdade de Ciências Médicas do Paraná, em 1956, juntamente com José Fernandes Loureiro e Carlos Ferreira da Costa. Foi seu primeiro professor de Clínica Cirúrgica. Prestou apoio indispensável, como diretor-clínico da Santa Casa, à consolidação da Faculdade, que, no futuro, seria incorporada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
Sua irrestrita dedicação à Medicina fez com que recusasse posições políticas e sociais que lhe foram oferecidas em diversas ocasiões. Não se furtou, porém, de participar de atividades intelectuais decorrentes de sua qualidade de professor universitário. Foi o primeiro Titular da cadeira 31 da Academia Paranaense de Letras, substituindo o fundador José Pereira de Macedo e cujo patrono é Nilo Cairo.
Outra entidade não médica que contou com a participação de Mario Braga de Abreu foi o Círculo de Estudos Bandeirantes. O Círculo foi fundado em 1929 e reunia intelectuais católicos interessados em estudos filosóficos, sociais e morais, procurando arregimentar nomes de formação ilibada visando opor-se às correntes modernistas extremadas. Inicialmente o Círculo funcionou no porão da residência da família de Loureiro Fernandes, de quem era grande amigo pessoal. Além disso, a ele estavam filiadas várias figuras de suas relações, como Bento Munhoz da Rocha Neto. Ali estava a base para a futura Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que teria papel decisivo na federalização da Universidade do Paraná e na fundação de uma Universidade Católica em nosso Estado.
Mario Braga de Abreu faleceu em 8 de julho de 1981. Não é fácil sintetizar uma vida tão rica. Talvez pudéssemos fazê-lo referindo o título que a Assembleia Legislativa lhe outorgou unanimemente, de Cidadão Benemérito do Paraná, tomando esta expressão no seu mais legítimo sentido.
Entrega da medalha de Mérito Médico São Lucas em 1964, vendo-se, à esquerda, Mario Braga de Abreu, ao centro Benedicto Montenegro e, à direita, José Bonifácio Medina

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