1870 1958
Patrono
Cadeira 31
Patrono: Julian szymanski
Julian Szymanski, filho de Júlia Poceyko e de Konstanty Szymanski nasceu em Kielse, Polônia, no dia 3 de maio de 1870. Szymanski nasceu na Polônia ocupada. Varsóvia e Kielse estavam na época sob o domínio russo após o malogro da terceira revolução anticzarista e as Universidades eram focos de reação nacionalista contra a supressão da identidade polonesa. Graduou-se na Universidade de Kiev, cum eximia laude, em 1896 e tornou-se assistente da Clínica Oftalmológica da Universidade, mas em pouco tempo engajou-se na marinha mercante e, como médico de bordo, viajou ao Oriente em expedição à remota península de Kamchatka registrando casos de lepra, doença com que travava contato pela primeira vez. Depois trabalhou como oculista durante a construção da estrada de ferro da Manchúria.
Voltou à Europa e passou dois anos especializando-se em doenças dos olhos, ouvidos, nariz e garganta. Em Viena foi assistente-voluntário na Clínica de Otorrinolaringologia do professor Fucchs e fez diversos cursos de aperfeiçoamento na especialidade. Nessa época estabeleceu relações amistosas com João Brito, que viria a ser professor de Oftalmologia em São Paulo. Em Paris trabalhou na clínica do compatriota Galezowski. Também frequentou cursos e fez estágios de aperfeiçoamento em outras cidades europeias e norte-africanas como Túnis e Álger, atraído pela oportunidade de familiarizar-se com o tracoma. Esteve ainda em Estrasburgo e na Espanha observando o trabalho de Barraquer e Arruga e aprendendo novas técnicas cirúrgicas. Concluídos os estudos, Szymanski voltou para a Polônia e em Ozarich, na província Minsk-Litovski, organizou um serviço móvel de combate ao tracoma.
Interrompeu a atividade no início de 1904 quando estourou a guerra russo-japonesa e ele serviu como médico do exército do czar no porto de Vladivostok, longínquo ponto final da ferrovia transiberiana. A desastrosa derrota russa levou as tropas à rebelião em Vladivostok e ele organizou os soldados poloneses do exército czarista, então comandados por Jósef Pilsudzki, patriota polonês refugiado no Japão que lutava contra as forças russas. Com a chegada de uma expedição punitiva russa a Vladivostok, Szymanski foi obrigado a exilar-se em território japonês e dali seguir para os Estados Unidos.
Encontrou na América o ambiente favorável à permanência e à regularização da atividade dos profissionais liberais europeus que na época para lá imigravam. Fixou-se em Chicago, local de grande concentração de poloneses, e submeteu-se aos exames de revalidação do diploma para iniciar a prática médica. Começou a trabalhar no Rusch Medical College como assistente do professor Northon e como consultor do Serviço de Olhos e Ouvidos do professor Fisher. Muito ativo junto à colônia polonesa da cidade, organizou a chamada Universidade Popular Polonesa, assumiu a secretaria da Sociedade dos Médicos Poloneses de Chicago e a da Sociedade dos Livre-Pensadores Poloneses e foi também diretor honorário do periódico Dziennik Ludowy. Nesse período casou-se com Casimira - imigrante polonesa, intelectual e redatora do semanário Zgoda.
O clima frio e o famoso vento cortante das margens do lago Michigan que lhe prejudicavam a saúde e as notícias de antigos companheiros das lutas políticas na Polônia que haviam imigrado para o Brasil, contribuíram com a decisão de deixar os Estados Unidos. Em 1912, a bordo do Vassari, Szymanski e Casimira desembarcaram em Paranaguá e decidiram fixar-se em Curitiba.
Na capital paranaense encontrou boa receptividade e restabeleceu o contato com Szymon Kossobudzki, recém-chegado de Ponta Grossa e professor da Universidade do Paraná, que o introduziu no meio universitário onde seus títulos acadêmicos foram valiosos.
Embora os primeiros titulares das cátedras da Faculdade de Medicina tenham sido eleitos por notório saber, em 1916 Szymasnki revalidou o diploma e em seguida foi aprovado em concurso para a regência da cadeira de Doenças dos Olhos, Ouvidos, Nariz e Garganta defendendo a tese Contribuição para o Es- tudo das Tonsilas. Passou a catedrático em janeiro de 1917. No mesmo ano, notando a ausência de textos em português das matérias que lecionava, mandou imprimir Oftalmologia para Estudantes; de fato o primeiro livro didático publicado no Brasil sobre o assunto, pois antecedeu em dez anos o conhecido Oftalmologia de Abreu Fialho. Divulgou modernos procedimentos cirúrgicos que tivera oportunidade de conhecer nos Estados Unidos, entre eles a amigdalectomia pelo método de Sludder e as intervenções nos etmoides.
Morava em Araucária e, usando uma modesta herança que recebera, construiu uma Casa de Saúde na cidade, mas em 1919 com o término da Primeira Guerra Mundial e o restabelecimento da independência da Polônia, Szymanski pôde finalmente encerrar o exílio político. Voltou à terra natal e foi nomeado catedrático da cadeira de Oftalmologia na velha Universidade de Wilna. Levou consigo João Lech Junior, seu discípulo em Curitiba e que em 1925 estabeleceu- se em Campinas como assistente do Instituto Penido Burnier.
Szymanski ensinou na Universidade de Wilna por quinze anos desfrutando de notável posição nos panoramas nacional e internacional da Oftalmologia e integrando organismos e conselhos da especialidade. Na Polônia a situação política lhe era favorável e a antiga ligação com Pilsudzki, chefe da nação na época, valeram-lhe as indicações para o cargo de senador e de presidente do Senado.
Sempre manteve os laços afetivos com o Brasil. Fundou a Sociedade Rui Barbosa polônio-brasileira e foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Em 1927 visitou o Brasil e, convidado por Victor do Amaral, foi muito bem recebido em Curitiba e fez algumas conferências sobre Oftalmologia.
Várias publicações científicas de Szymanski apareceram na imprensa médica polonesa, brasileira, inglesa, francesa e alemã. São ainda da década de 1920 os livros Manual de Anatomia Patológica dos Olhos, Corpus Tabularum Ophtalmicarum, do qual fez imprimir uma versão em português, Atlas de Fundo de Olho e Iconografia do Tracoma.
Recebeu homenagens da Liga Antitracomatosa, da Sociedade Francesa de Oftalmologia, da Universidade de Tartu na Estônia e de diversas entidades europeias e brasileiras.
Em 1935, aos sessenta e cinco anos, foi jubilado da Universidade de Wilna e encerrou a carreira condecorado com a Estrela da Polônia Restituta e as ordens da Iugoslávia, da Estônia e do Japão. Voltou então a Varsóvia para dirigir o Hospital Militar Polonês-Maltense. Por seu trabalho foi inscrito cavalheiro da Ordem Soberana de Malta.
Com o tratado de Yalta, testemunhou a entrada na Polônia das forças libertadoras russas vindas do leste e tão opressoras quanto os invasores czaristas que combatera na juventude. Só conseguiu voltar para o Brasil em 1949 e como ele escreveu melancolicamente “liberando-me desta vez do Tzar Vermelho, muito mais cruel e duro que o antigo Tzar Branco”.
Em Curitiba legalizou a permanência no país depois de uma breve detenção policial, ironicamente sob a suspeita de ser comunista.
Nos anos seguintes ainda encontrou vitalidade para dar conferências e cursos na Universidade do Paraná e para comparecer a congressos médicos no Brasil e na Argentina.
Operado de catarata bilateral viveu mais alguns anos em Araucária, afastado da profissão. Em 1956 empreendeu o último retorno à terra natal. Morreu na Polônia em 1958 aos oitenta e oito anos.
Deixou no Brasil um filho médico oftalmologista, Julian Szymanski.
Julian Szymanski teve papel saliente no ensino da Faculdade de Medicina do Paraná, nas áreas de Otorrinolaringologia e de Oftalmologia. Em 1920 publicou seu tratado de Oftalmologia, primeiro no gênero a ser editado no Brasil , em português, cuja página de rosto é reproduzida acima.